sábado, 4 de julho de 2015

Por que temos de ter cuidado como encaramos casos de racismo?


A muito eficiente jornalista do Jornal Nacional, Maju Coutinho, foi vítima de ataques de racistas pela internet.  Algo horrível que tem, como todo o racismo, de ser combatido; fruto do crescimento de um fascismo cibernético em nosso país, principalmente contra minorias; fruto e causa de um aumento do conservadorismo reacionário presente no Congresso Nacional. Mas temos de ter cuidado na forma como rebatemos tais ofensas para não estarmos criando um tipo de discriminação muito mais sutil, uma espécie de racismo meritocrático.

Em grande parte das defesas da jornalista temos um argumento que parece bastante belo: “Uma pessoa sobe na vida e é ofendida só por ser negra”. Nessa frase reside um problema sério, no qual o preconceito torna-se condenável por que houve a ascensão social do sujeito e não simplesmente por causa da cor da pele. Assim todos os negros que “não venceram na vida” tornam-se invisíveis a essa defesa do individuo. Por isso, torna-se um racismo meritocrático: o negro só tem seu racismo denunciado por muitas pessoas caso ele/ela já tenha uma melhora em seu status social.

A questão torna-se “Por que uma mulher bem sucedida recebe ofensas pela cor de sua pele?” quando deveria ser uma pergunta mais ampla “Por que uma mulher é ofendida por ser negra?”.  É uma individualização da questão que impede uma luta mais concreta contra o racismo, sendo a maior prova como o Jornal Nacional está interessado em defender sua funcionária (com toda razão e ela merece toda defesa possível) do que, além de defende-la como individuo, também procurar debater o racismo de forma sistemática. 

Acontece algo parecido em relação a dependentes químicos. Enquanto há centenas nas crackolândias, a mídia tem uma tendência geral em focar em celebridades em suas lutas contra as drogas, a entrada delas em suas vidas e a luta para sair.  Por que para quem está no alto das classes sociais, a questão das drogas é realmente algo da alçada da saúde e não caso de polícia.  Para os que estão embaixo, devemos é descer o sarrafo mesmo.

É uma triste lógica de individualizar um problema naqueles  que são ditos “merecedores” pelo sistema e esquecer o coletivo. A defesa da pessoa é importante principalmente para ela como ser individual, mas podemos fazer com que a defesa individual esteja acompanhada pela discussão do problema em seu viés coletivo. Se não enquanto Maju da Globo é protegida teremos milhares de Majus que não são.

p.s. #SomosTodosMaju não é a hashtag mais correta sobre o assunto. É um gesto bonito e decente, mas é ineficaz, principalmente por que em uma sociedade cheia de preconceitos e discriminações não somos todos os iguais.  E temos de encarar isso o mais rápido possível.